Economista aponta desonestidade da mídia ao ‘criminalizar servidores públicos’

BSPF     –     23/08/2020

Alinhada a Paulo Guedes, mídia esconde, na análise de
Uallace Moreira, que o governo veta reajuste para trabalhadores que estão na
linha de frente no combate à covid-19, mas dá bonificação aos militares de alta
patente que custará bilhões

São Paulo – Palavra de ordem de parte da imprensa
tradicional, o termo “reforma” administrativa costuma vir seguido do discurso
de que “se gasta muito com o funcionalismo público” e que “a máquina pública
está inchada”. A mídia comercial, como observa o professor Uallace Moreira, da
Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), se associa à
tese do governo de reduzir direitos da população em geral para “criar empregos”
e dos servidores públicos para “reduzir gastos”. 

O empenho do setor foi sintetizado em um webinar do canal
Jota, nesta quinta-feira (20), quando o ministro das Comunicações, Fábio Faria,
declarou que a mídia caminha junto com o governo em em algumas pautas de
interesse comum. “A reforma da Previdência teve uma aderência natural. Todos os
veículos de imprensa praticamente aderiram à reforma”, disse. “Nós não temos o
que reclamar em relação a isso, todos os veículos praticamente assumiram uma
posição favorável.”  

“A questão é que a grande imprensa no Brasil criminaliza os
servidores públicos de forma completamente desonesta. Ela faz comparações e
cria mitos em relação aos servidores públicos completamente equivocados”,
afirma Uallace Moreira. Em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual, o
professor lembra que é com o teto do INSS, como qualquer outro trabalhador, que
o funcionário público se aposenta – as exceções, como os super-salários do
Judiciário, não costumam ser afetadas por essas “reformas”. 

Todos os servidores que ingressaram após o início da
vigência do regime de previdência complementar, em 2013, não têm direito à
aposentadoria com o salário integral, fato em geral omitido pela mídia. “Pior,
o servidor público hoje não tem e nunca teve FGTS, porque é uma contrapartida
da estabilidade de emprego. Mas essa questão não é colocada para a sociedade”,
contesta. “Outro mito é a participação dos empregados do setor público no total
da ocupação em países selecionados pela OCDE (Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico).” Segundo Moreira, no Brasil o funcionalismo público
responde por 12,1% da força de trabalho pontos. “Está abaixo da média da OCDE,
que é 21,3%.” 

Quem são os privilegiados?

Das narrativas criadas, o economista destaca também a
crítica ao número de servidores federais no governo de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) que, ele aponta, está diretamente relacionado à criação das
universidades federais. No período em que 14 universidades foram implementadas,
Moreira, que já era professor, conta que não havia professores ou infraestrutura
em número suficiente. “Era preciso fazer concurso. As universidades federais,
públicas, por exemplo, foram depreciadas durante o governo de Fernando Henrique
Cardoso”, descreve. “E houve a necessidade de fazer mais concurso. A ideia da
universidade pública de qualidade é real e verdadeira. E para que ela
permaneça, é necessário realizar concursos para contratar professores.” 

A “confusão” de parte da imprensa sobre as categorias de
funcionários públicos contratados talvez se explique pelo que o economista
chama de “homogeneização”. A estratégia seria tratar os servidores como iguais,
mesmo que uns tenham mais benefícios que outros. “Os servidores públicos têm
técnicos, professores, juízes, militares, o debate que tem que ser levado em
consideração é quais são as categorias que de fato são beneficiadas. A gente
pode discutir e isso tem que ser discutido. Não é plausível que o juiz alcance
um salário acima do teto, com aqueles penduricalhos, como as pessoas falam, que
vai chegar a 100 mil. Isso de fato tem que ser revisto”, defende. 

“Reforma” administrativa

Na prática, além de não atacar esses privilégios, o que a
“reforma” administrativa que vem sendo proposta pretende é “dificultar a
atuação sindical dos servidores. Isso é um absurdo, como é também flexibilizar
a estabilidade. Funcionário público é um funcionário de Estado e não de
governo. Isso significa dizer que vai passar o governo e eu continuarei
servidor público, atuando de uma forma correta com o compromisso com os
interesses do país. Quer dizer que eu posso dar aula na universidade. A partir
do momento que a minha estabilidade fica sujeita a critérios de avaliação, de
acordo com o interesse de governo, comprometo por completo a ideia da ciência
dentro da universidade, que tem várias tendências e correntes de pensamento”. 

Penduricalhos dos militares

Moreira também contesta a posição da Câmara dos Deputados em
relação à manutenção do veto de Bolsonaro a reajustes salariais e progressão
funcional para categorias de servidores públicos que atuam na linha de frente
no combate ao coronavírus até 31 de dezembro de 2021. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, alegou que o reajuste
salarial aos profissionais seria “um crime contra o país”, conforme mostrou a
RBA. A reação só não foi a mesma quando Bolsonaro concedeu, em junho, reajuste
de até 73% em bonificação salarial aos militares de alta patente. Em cinco
anos, a medida custará R$ 26,5 bilhões aos cofres públicos. 

Governo de privilegiados

O reajuste à época também passou sem muita repercussão por
parte da mídia comercial. Ao mesmo tempo em que os sindicatos dos professores
apontavam para uma perda real dos salários da categoria em torno de 30%. 

“O que tem acontecido é que muitas instituições privadas,
que pagam muito bem para professores, estão resgatando o professor de alta
qualificação. E alguns professores estão indo embora do país. Uma fuga de
cérebros, e isso é extremamente preocupante. Mas, mais preocupante ainda, é a
gente ter um governo que vetou o reajuste para pessoas que estão na linha de
frente ao combate à covid-19 mas que dá uma bonificação de R$ 26,5 bilhões para
os militares de patente mais elevadas. Isso mostra que esse governo tem lado e
não é o lado da classe trabalhadora”, adverte o economista Uallace Moreira. 

Para o professor da UFBA, toda essa contradição evidencia
que a oposição da imprensa tradicional a Bolsonaro é restrita aos termos de
valores morais e ao conservadorismo. Do ponto de vista econômico, “ela está
extremamente afinada e ela apoia ela, dá sustentação. É por isso que o
Bolsonaro permanece como uma figura importante e com a figura do Paulo Guedes”.

Fonte: Rede Brasil Atual

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